Trova do Poeta de Vanguarda ou The Medium is the Massage [José Paulo Paes]
se me decifrarem
recifro
se me desrecifrarem
rerrecifro
se me desrrerrecifrarem
então
meus correrrerrecifradores
serão
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Reviravoltas
***Horas e horas deitada numa espreguiçadeira branca e dura, em frente a uma piscina gelada, observando um pedaço do céu entre dois prédios. Assim descobri que o mundo é pequeno. Sempre achei que o céu não tinha fim, mas ali a idéia se dissipou, como as nuvens cinzentas, zanzando até que eu chegasse a essa conclusão.
***Acho que me lembrei disso hoje, porque é o aniversário da pessoa que estava comigo naquele momento. E eu nem falo mais com essa pessoa.
***O título do post está propositalmente no plural. Mas eu não quero falar sobre isso.
***Não sei se mudou tanto assim, só que está muito pior. De repente, todos os problemas ficam maiores, tudo vira problema. E nada de bom no meio. De repente, a segunda-feira e o sábado parecem iguais. O que diferencia os dias da semana é a expectativa que se tem em cada um. O melhor da segunda-feira é saber que o sábado vai bombar. Quando o sábado não bomba, o que diferencia os dias é o quanto você leu. De agora em diante, a meta é quebrar recordes. Não agüento mais expectativas. Não quero querer absolutamente nada.
:: Andressa Priscila :: 11:28 PM
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Neve
Ka logo sentiu que eles iriam fazer amor até de manhã, ainda que Turgut bei estivesse sob o mesmo teto. "Foi a mais sublime surpresa tomá-la nos braços sem antes sofrer a agonia da espera. Sua longa noite de amor levou Ka a um lugar para além dos limites da felicidade; ele estava fora do tempo, fora do alcance de toda aflição; lamentava apenas ter levado a vida inteira para descobrir aquele paraíso. Sentiu uma paz que nunca sentira antes. Esqueceu as fantasias sexuais guardadas no fundo da mente, as imagens pornográficas das revistas. Enquanto fazia amor com Ípek, ouvia uma música dentro de si, uma música que nunca ouvira antes, nem sequer imaginara, e deixando-se levar por suas harmonias conseguia achar o seu caminho.
De tempos em tempos ele adormecia e sonhava com férias de verão banhadas numa luz celestial; ele corria livre, ele era imortal; seu avião estava prestes a cair do céu, mas ele comia uma maçã, uma maçã que nunca iria se acabar, uma maçã que duraria para sempre. Então acordava para o cálido aroma de maçã da pele de Ípek. Guiado pela luminosidade da neve e pelo brilho pálido das lâmpadas dos postes, aproximava os olhos dos dela e tentava ver dentro deles; ao vê-la acordada e observando-o em silêncio, teve a sensação de que eles eram duas baleias aquecendo-se lado a lado na água rasa; só então percebeu que estavam de mãos dadas."
[Trecho de Neve, de Orhan Pamuk]
***Eu também quero.
:: Andressa Priscila :: 12:46 AM
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Quando a circunstância do mundo redunda em flor, a vida só pode ser poesia
Mirtes Brígido é um girassol, antes mesmo de explicar por quê. O que dizer de uma senhora abraçando um grupo de desconhecidos tão docemente? Suave redundância: vestindo uma camiseta amarela, com três flores, Mirtes nos recebe no seu aconchegante lar e, em pouco mais de duas horas, conta-nos, com uma voz serena, algumas minúcias de uma vida iluminada.
Mirtes é prosa, poesia, música. É Clarice, Patativa e Tchaikovsky. É um pouco da tia que morreu de amor e muito de cada uma das pessoas que viu sucumbir. No quarto do som, entre fotos e máscaras, ela abre suas memórias, e revela as figuras ubíquas na sua alma. O mural repleto de fotografias lembra-a da luta do dia-a-dia. Ela não quer mais preenchê-lo com fotos dos saudosos amigos soropositivos.
Mas quem é essa gentil guerreira? Cearense do Crato, nasceu em 1941. Lembra a sensibilidade do pai, "a figura mítica", que não tinha medo de chorar. Já a mãe "é um departamento carinhoso da minha alma". Tem orgulho do avô que, graças à amizade com o Padre Cícero, de roceiro, passou a tabelião e foi o responsável pelo testamento do padre.
Moça à frente do seu tempo, brincava com os meninos. Valentia nunca lhe faltou: engoliu uma piaba viva e um coração de beija-flor para poder participar das peripécias dos garotos. Apaixonara-se pela literatura, e queria morrer de amor como Marguerite Gautier. Mas Mirtes não é camélia, é girassol.
De espírito revolucionário, chegou ao curso de Direito da Universidade Federal do Ceará cheia de sonhos do interior e, logo, engajou-se no movimento estudantil. Trouxe consigo uma alma impregnada de ideais socialistas junto com seu anjo da guarda. Kiwi levou muito tempo para ser batizado. Um dia, comprando oferendas para a Igreja Messiânica, pegou num kiwi e, de súbito, teve o ímpeto definitivo de batizar o anjo.
"Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás", Mirtes cita Che Guevara, descrevendo-se. Porém, o sonho socialista ficou no plano da utopia. Ela se casou "ideologicamente" e teve dois filhos. Ambos "policiais, mas humanos". A dicotomia se perpetua. Muito antes dos papéis do divórcio, a incongruência dos cônjuges era irreconciliável. "Foi cômodo para mim ficar em casa lendo Marx e ouvindo Beatles", enquanto o marido "se perdeu nos rótulos dos bureaus do Banco do Brasil".
Mas Mirtes despertou para o sonho. A utopia ainda era possível. As experiências com pacientes de oncologia e a viagem à Itália contribuíram com a concepção do Projeto Girassol. "Abraçar quem está morrendo é tão importante quanto acolher quem está nascendo". Mirtes viu no surgimento da AIDS uma guerra, e a ternura pelos gravemente enfermos levou-a a sorrir para um novo grupo de oprimidos. A grande revolução foi perceber que "os voluntários de hoje são os ativistas de ontem".
"Antes éramos apenas valquírias, agora encaminhamos pessoas às barricadas". A luta dos girassóis não é mais recolher os tristes cavaleiros derrotados, mas melhorar a qualidade de vida dos soropositivos. Os pacientes do Hospital São José recebem atenção, carinho e companhia. Há casos de alegria, como a vontade de ser mãe, cujo resultado foi uma garotinha chamada Mirtes Vitória. Um pleonasmo, como sugeriu um amigo de Mirtes. Mas "a alegria é efêmera".
E ela tem muitos exemplos das agruras da vida. "Estou muito íntima hoje, é o entardecer". Estávamos todos. Sim, Mirtes, "há uma carência de girassóis nos canteiros da vida". Ela é certeira no olhar e nas palavras. Não há como escapar do "amor como revolução". Em meio a muitas contradições, todo mundo é "anjo e demônio". Afinal, uma mulher tão preocupada com os outros tem direito de tomar cerveja até o amanhecer.
Tem o direito de se apaixonar, também. E de sofrer. Mas quem entende que "a beleza é triste" sabe lidar com o sofrimento. Numa pincelada de candura, ela conta que daqui a cinco anos deveria se chamar Lourdes. Não. Mirtes vem do grego, da planta murta, tão digna, que era usada como grinalda e quer dizer triunfo. O nome lhe cai bem. Essa senhora tem medo de "ficar sem essas pessoas, sem esse mundo". Mas é esse mundo que deve temer perdê-la.
:: Andressa Priscila :: 6:13 PM
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Sublimei demais em outras coisas e não está sobrando nada para sublimar aqui, pode?
:: Andressa Priscila :: 3:21 PM
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Globo de Ouro
A premiação foi tão interessante que a melhor observação que tenho a fazer é: quando o prêmio mais emocionante da noite é o Cecil B. de Mille, fique feliz, você conhece pessoas consagradas do cinema. Mas quando você conhece o premiado e muita coisa da obra dele, fique triste. Você está ficando velho.
:: Andressa Priscila :: 12:26 PM
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De Maria das dores à Maria do socorro, a mulher que converteu lamúrias em vitórias
Nasceu Maria, da Penha, das dores, dos amores, de Fortaleza, das meias soquete e sapatinho boneca, do batom nas clandestinas idas ao cinema, do pingue-pongue depois da aula, das brincadeiras de rua, da disciplina ensinada pelos pais, das peripécias com as irmãs. Mais uma Maria, senhora soberana, como a origem hebraica, da vida. Essa Maria bela que, mesmo sexagenária, conserva a pele angelical, de rainha dos calouros nos tempos de faculdade.
Ela tinha tudo para ser mais um daqueles retratos sorridentes nas paredes familiares. Primeiro com as filhas, depois, empoeirado num cantinho, com os netos. Seguindo os conselhos da avó, mulher forte, Maria estudou para ser farmacêutica. Não deu nome a uma farmácia, mas foi longe, e chegou a um mestrado na USP. Lá, a vida lhe sorriu. Conquistou Viveros, o amor e o algoz. A educação recatada levou-a, assim como as amigas, a vê-lo como um homem ideal. A ardilosidade dele era irresistível.
Contudo, a felicidade é um lampejo e não tem hora para voltar. Maria também é mágoa, e amargura. Paulatinamente, o retrato sorridente foi perdendo as cores. Três meninas preencheram-no. Naturalizado brasileiro, o colombiano Viveros não precisava mais do dinheiro e do amparo da esposa. Ela fala serenamente dos infortúnios sucedidos antes e depois do tiro no escuro, o estampido inesquecível que privou-a do alvedrio. Para o próprio desprazer, passou a viver ao bel-prazer de Viveros.
Aos poucos, reuniu forças e magnitude até ser uma montanha, Penha. O alicerce, o amor pelas três outrora pequeninas, de quem ela fala com a mais tenra doçura. Aquela Maria frágil, que não sabia como revelar ao mundo as máscaras da falsa felicidade, que não sabia nem entendia nada do movimento de mulheres, feneceu. Maria da Penha não varreu a mentira barata do marido homicida para debaixo do tapete. Gritou a voz feminina, inaudível na sociedade e justiça machistas.
Penha viu a viscosidade do marido escapar pelas brechas da lei em dois julgamentos. Resistiu. Redigiu a própria carta de alforria, na qual cada lamento tornou-se mais um mecanismo de protesto, culminando no livro Sobrevivi... Posso contar. Organizou uma prova inconteste de que em briga de marido e mulher se mete, sim, a colher. Só titubeia quando indagada sobre o período de reabilitação no Hospital Sarah Kubitschek.
Voltar à vida é tremendamente mais doloroso que o passo da morte. Lembrar-se de como recobrou os movimentos, de como era difícil realizar atividades aparentemente banais, como escovar os dentes, isso Penha prefere guardar nas páginas do livro. De Viveros, fala com a serenidade conquistada ao longo de 23 anos de luta. Consegue rir, mesmo sabendo da prisão perpétua sentenciada por ele. É que ela venceu. Maria da Penha virou lei.
Depois de clamar por justiça, os direitos humanos falaram mais alto. Prometeram-lhe duas indenizações. Da material, nem sinal. A simbólica é a lei. Mas não só. Penha quer ver a lei funcionando, fica orgulhosa quando tem notícia de que um marido foi preso por agressão. De Maria das desgraças próprias, passou a Maria das graças das mulheres violentadas. Hoje, ela é Maria do socorro, Maria auxiliadora, Maria da glória, Maria celeste, Maria dos anjos, Maria das graças, Maria da Penha.
:: Andressa Priscila :: 12:11 AM
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Eu, quase uma autoridade do kitsch, ando sucumbindo à arte da felicidade, para minha infelicidade. Trocando em miúdos: A Casa do Lago, lançamento nas locadoras, filme com a Sandra Bullock (argh) e Keanu Reeves (uiuiuiui) foi a sublimação da noite de ontem. Depois de uma longa discussão com os amigos sobre (in)felicidade, depois de ser chamada de melancólica feliz, depois de tudo isso, eu consegui me provar, ao menos, que sou, no mínimo, masoquista. Por quê?
O filme é fofo, do início ao fim. Só é triste se lembrar dos boatos sobre a sexualidade do Keanu. Enfim, o filme. Eu posso provar o quanto é kitsch, ser uma diluição do romance Persuasão, de Jane Austen é o primeiro indício. Saber antecipar boa parte dos fatos é outro. E quanto aos efeitos? Ser fofo a priori é kitsch no último. Mesmo assim eu recomendo o filme. Só assisti porque o trailer fica meigo com a música do Keane. Aliás, a música nem está na trilha do filme.
Resultado: eu fui dormir feliz, mas me sentindo pior, porque ao acordar, não tinha Keanu, nem Alex Wyler, nem a casa do lago como prêmio de consolação. Adorno e Horkheimer tinham razão: a indústria cultural coloca essas situações lindas e fofas, que nunca vão acontecer com você, parecendo reais a ponto de você achar que podem acontecer. O problema é que eu gosto de mergulhar fundo nas mentiras da indústria cultural. Segundo Adorno (1947), eu sou uma alienada. Segundo Freud (?), bem, isso eu prefiro não publicar.
:: Andressa Priscila :: 9:29 PM
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# Eu não vi os dois filmes, logo, não bati o recorde de 2004.
# Em 2007, pretendo ver mais filmes.
# Motivos profissionais, claro, porque estou atrás de tudo o que é cult.
# Em 2007, serei uma jornalistinha e pequisadorinha.
#Preciso escrever e arrumar um agente, porque agora quero todo o glamour discreto da vida de um escritor-que-escreve-no-laptop-na-mesa-de-um-café-em-Paris.
# Eu sou pior do que eu pensava.
# Preciso abolir as frivolidades da minha vida, já que não sei fazer uso delas.
# Eu não preciso mais de tempo livre, porque agora, a monografia terá meu sangue.
# Virou uma questão de honra.
# Preciso deixar de ser pseudo-patricinha.
# Preciso deixar de ser um monte de coisa, para me tornar um bocado de outras coisas também.
# O porquê dessas resoluções pós-réveillon? Não vem ao caso, porque me lembra os dois coquetéis de frutas, as seis caipiroskas de siriguela, um gole de cerveja, uma taça de champanhe, uma caipirinha de siriguela e outra de tangerina. Pois é, isso definitivamente não vem ao caso.
# Ah, feliz ano novo.
:: Andressa Priscila :: 1:21 PM
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